Thursday, September 14, 2006

NO FLAGRA



“Deu praia no Líbano.” Esse é o UOL querendo fazer gracinha com a desgraça alheia. Mas pelo menos essa foto serviu para alguma coisa. Acho que o cara que aparece lá no fundo, à esquerda, é o Amir Rachid, que pediu emprestado o meu “Mudança Estrutural da Esfera Pública”, do Habermas, e o meu DVD Flash House Vol.2 e depois sumiu, sem devolver nada. A família do safado ainda me falou que ele havia desaparecido em combate. Sei. É ele mesmo, reconheço até o calção.

Ah, mas nenhum soldado com metralhadorazinha vai conseguir me impedir de pegar esse pilantra e dar um caldo nele no meio da praia. Estou passando o bronzeador neste exato momento.

Monday, September 11, 2006

ALLEGRO MA NON TROPPO

Já falei quem é Ali Chofli? Ele é meu inimigo número um nessa cidade, meu completo oposto, minha antítese, o gênio do mal cuja razão de existir é transformar minha vida numa sucessão de calamidades, e o gerente da locadora mais próxima de casa. Eu nunca alugo nada lá, mas, desde o bombardeio covarde da Youssef Video, que era meu oásis de filmes europeus em meio à multidão de locadoras arrasa-quarteirão, não me sobrou outra opção. Mazel tov, Força Aérea Israelense!

Dei um pulo ontem lá na locadora dele, e o ordinário do Ali fez questão de me atender. "Não quero ver nenhum dos seus enlatados hollywoodianos", anunciei de forma solene e viril. "Que é isso, aqui a gente só tem filme de arte", disse Ali. "Você gosta de música clássica? De música de gente grande?", ele me perguntou. É claro que eu gosto de música clássica. "Então tenho um DVDzaço reservado para você", ele falou, colocando o documentário Beethoven, o Magnífico na minha mão.

Saí de lá salivando de expectativa, e surpreso com a descoberta do lado gente fina do Ali Chofli. Ao chegar em casa, coloquei o som no turbo, sentei em minha mais selvagem cadeira de balanço, ajeitei a almofada e me preparei para ter os ouvidos inundados pelas trombetas celestiais do velho Ludwig Van, mas, logo ao apertar o play, fiquei com a impressão de ter sido feito de idiota. Quer dizer, ou eu fui feito de idiota ou então Beethoven – o insuperável gênio da Renânia, o autor de sinfonias que fariam deuses chorarem em temor e reverência, o mestre que escreveu seu nome na História da Música a machadadas de lirismo superior – era na verdade um são bernardo comilão que se metia nas maiores confusões para escapar de um veterinário sádico, que o queria transformar em objeto de suas diabólicas experiências.

Terei sido enganado? Ah, se isso tiver acontecido o Ali vai me pagar... Já até aluguei Beethoven 3 – Uma Família em Apuros para esclarecer esse assunto. Eu vou até o fim.




Ludwig van Beethoven (1770-1827) teve sua obra transformada em DVD através da sensibilidade aguçada e erudita de Brian Levant e John Hughes

Thursday, September 07, 2006

RASTROS DE ÓDIO

A bandeira de Israel se tornou para mim o símbolo máximo da covardia, da mesquinhez, da vilania. Eu olho para ela e sinto meu coração doer de tanto ódio, uma dor cuja intensidade eu jamais havia experimentado, a não ser, talvez, quiçá, assistindo a algum filme do Robin Williams. É verdade que existe quem considere esse cara engraçado? Me recuso a acreditar.

Eu acho o Monty Python engraçado. Acho o Queer Eye for the Straight Guy engraçado. Acho o Carlos Alberto de Nóbrega engraçado, assim como seu herdeiro e galã de quermesse Marcelo Nóbrega. Eu achava até o Terça Insana engraçado. Eu acho qualquer coisa engraçada, menos o Robin Williams.

Friday, September 01, 2006

A FAVOR DE ISRAEL
















A FAVOR DO LÍBANO, DA PAZ, DA VIDA!

Tuesday, August 29, 2006

BASTA!

Mais uma vez quem vai sofrer na pele com o resultado das travessuras militarescas d’Israel é a população civil e ordeira do sul do Líbano. Eles devastaram a região inteira e agora voltam para casa cantarolando Hava Nagila alegremente, enquanto nós, as vítimas, vamos ter que aturar o bafo quente do Exército libanês no cangote por sei lá quanto tempo. Não só do Exército: uma missão internacional de paz, a tal da Unifil (Força Interina das Nações Unidas no Líbano), já está fazendo as malas e desembarca por aqui a qualquer momento.

Nossa já dramática situação, portanto, vai piorar ainda mais. Com a chegada do Exército, a proporção homens/mulheres na região passa a ser de uma dama para três machos. Depois, com a Unifil, uma estimativa otimista aponta que haverá oito homens para cada mulher. Se ainda por cima forem soldados italianos, como se especula, aí é que não vai sobrar nenhuma. Bem-vindos ao inferno.

Já as tropas francesas não me inspiram o mesmo temor.





Típico soldado-raso
do Exército da França

Saturday, August 26, 2006

“POR QUE VOCÊ NÃO VOLTA PARA O BRASIL?”

É o que me pergunta a parentaiada do outro lado do Atlântico, por e-mail, carta ou telefone, muitas vezes à cobrar. Não volto porque me sinto mais seguro aqui. Não quero terminar como aquele repórter da Globo, com o divertido apelido de “Portanova”, que foi seqüestrado pelo pececê e, depois de libertado, apareceu sem camisa em rede nacional. Eu já recuso todos os convites que me fazem para ir à praia justamente para não ter que tirar a camisa na frente dos outros; é claro que não vou deixar o câmera do Jornal Nacional me filmar desse jeito. Não, muitíssimo obrigado. Não é isso que eu quero para a minha vida. Dignidade já!

Thursday, August 24, 2006

O MUNDO É FABULOSO

O ser humano é que não é legal. É com tristeza que registro o crescimento do anti-semitismo em território libanês. Se o anti-semitismo já é ruim, tentem imaginar anti-semitismo num lugar onde ninguém é judeu. Ouço as pessoas nas ruas se queixarem da falta de oportunidades de serem anti-semitas.

Esse acúmulo de ressentimento acaba sendo descontado em nossos próprios vizinhos de bairro, irmãos de sangue, companheiros de luta. Hoje pela manhã, imaginem, tentaram linchar o Seu Maklouf, pacato aposentado e nacionalista convicto, só porque ele estava lendo jornal na varanda de sua casa enquanto ouvia “Exaltation”, do Matisyahu, superstar do reggae hassídico.

Ainda bem que uns poucos heróis conseguiram segurar a turba ensandecida, o que não impediu Seu Maklouf de ganhar uns roxos pelo corpo e de gritar feito um castrato até ficar rouco. Envergonhado, confesso que eu fazia parte da multidão revoltada. Mas é que eu odeio reggae. Sério, reggae é um lixo. Reggae não é um estilo musical, é o sintoma de um câncer na alma. Cara, que raiva eu tenho de quem ouve reggae.