Thursday, August 03, 2006

DIA DO FICO

Todos esses anos vivendo no Líbano poderiam ter esvaecido a memória de minha verdadeira nacionalidade, e é por isso que sempre carrego no bolso minha certidão de nascimento, onde lê-se um enorme REGISTRADO NA COMARCA DA VÁRZEA DO CANINDÉ que me impede de esquecer minhas raízes verde-amarelas.

Mas isso não significa que eu vou sair correndo de volta ao Brasil e atender às ordens de evacuação enviadas por Israel, que, em sua sanha imperialista, já deve ter uma centena de planos para o terreno do meu prédio aqui em Tiro, depois de limpá-lo com seus chamados mísseis inteligentes; provavelmente transformá-lo num kibutz e deixar aqui meia dúzia de ortodoxos penteando as têmporas o dia inteiro.

Pois vão ter que explodir o prédio junto comigo. Junto comigo e com as minhas lembranças, comigo e com os pôsteres do Information Society e do Snap que colei na parede quando tinha 16 anos e nunca tirei de lá como símbolo da minha rebeldia.

Cada objeto que eu guardei nesse quarto tem o direito de permanecer em seu lugar, ao contrário de um certo estado belicista (cujo nome eu nem gosto de mencionar mas é o mesmo de um membro do Kid Abelha) plantado artificialmente no berço da humanidade. Me recuso a ir embora. Vou ficar aqui, assim como meus livros sobre psicanálise, religião comparada e poesia concreta, assim como os LPs raros de rock gaúcho que eu garimpei anos e anos nos sebos de Beirute.

Será que o Exército de Israel sabe que escrevi um poema de Leminski ("Acordei bemol") atrás do criado-mudo, e que o leio todas as noites antes de dormir, sem jamais ter aberto uma exceção, tirando uma vez que eu passei 24 horas direto vendo maratona Lost? Será que isso será levado em conta quando os caças israelenses sobrevoarem a madrugada da minha cidade?

Não posso partir. Cada metro quadrado desse quarto conta um capítulo da minha vida, da minha aventura humana na Terra. Naquele canto ali, onde fica a estante com meus troféus de rima freestyle, antes da reforma era o lugar do computador; meu primeiro computador, o 486 safado que eu usava para escrever o “Ária Sob Intervenção”, considerado o melhor blog em português sobre ópera já feito no Líbano, que eu mantinha com meu amigo Onofre “Fígaro” Tuffic.

Mas agora o Tuffic foi embora, assim como tantos outros. Onde estará a dona Fatma, a solteirona sexagenária do apartamento de cima, que acordava o prédio inteiro quando resolvia fazer flexão de braço com batida de palma, que nem o Travis do Taxi Driver, às 5 da madruga? Eu sempre reclamava, mas hoje daria tudo que tenho, ou tudo o que me restou, para ser incomodado de novo pelos exercícios matinais da dona Fatma.

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