O QUE EU MAIS ODEIO NA GUERRA
...é que pessoas com quem você não tem a menor intimidade se sentem com o direito de, sob o pretexto de que estão lhe ajudando, invadir sua casa e arrastar você para um desses abrigos anti-bombas. Foi o que me aconteceu ontem, quando a Força Aérea do Estado Ilegítimo e Maquiavélico de Israel desrespeitou o cessar-fogo e voltou a bombardear o Líbano – o seu, o meu, o nosso Líbano. A notícia mal tinha chegado aqui em Tiro quando duas das últimas pessoas a quem eu chamaria de amigo, os infames Ali Chofli e Kazen Bechara, arrombaram a porta do meu quarto a pontapés, gritando "resgate! resgate!", bem na hora em que eu, em frente ao espelho, tentava aperfeiçoar alguns passos do meu moonwalking.
Houve um ou dois segundos de estupefação muda, mas depois saímos os três correndo em direção ao abrigo. Eu detesto esses lugares porque eles não passam de buracos úmidos que, por maiores que sejam, nunca são grandes o suficiente para abrigar a multidão de covardes que corre para lá, com as calças borradas, ao ouvir qualquer barulhinho de motor, confundido o som de um caça israelense com o de qualquer Chevette 73 tunado.
É sempre assim: calor, aperto e silêncio, até o perigo passar. A diferença dessa vez é que parecia que todo mundo estava olhando para mim de um jeito meio esquisito, e vi o Ali e o Kazen cochichando com várias pessoas; acho que eles tinham um sorrisinho maldoso nos lábios. O Ali não ia perdoar essa oportunidade de incinerar o meu filme e contar a sua versão do que ele me viu fazendo no meu quarto. Ele esperou anos por essa chance.
No distante inverno de 1999, Ali Chofli, então um jovem imberbe em uma inocente viagem de fim-de-semana, deixou-se embriagar pelo aroma cosmopolita da Paris do Oriente e encerrou uma noitada de sábado num desses karaokês decadentes do lado maronita de Beirute. Imaginando-se livre dos olhares opressores da província, só largou o microfone com muita insistência dos seguranças da casa e depois de um set de quase quatro horas com o melhor e o pior da dance music dos anos 70, que deixou o lugar às moscas. A única pessoa que havia resistido bravamente ao falsetes de Ali durante "Dance, Little Lady, Dance" e "So Many Men, So Little Time" era um rosto familiar, de Tiro, e que ele jamais imaginava rever em circunstâncias tão embaraçosas: eu.
Então estudante da Universidade de Beirute, também estranhei a coincidência de encontrar um conhecido em meio à megalópole habitada por faces anônimas e indiferentes, e saboreei cada espasmo de pânico que vi no rosto de Ali, flagrado por um conterrâneo enquanto pagava de diva. Minhas irônicas batidas de palma ecoavam pelo karaokê vazio e dilaceravam a alma e a dignidade do pobre Ali.
Voltei para Tiro e contei para todo mundo, é claro. Eu acho, dando uma de psicólogo de botequim, que foi por isso que o Ali virou um sujeito desconfiado, sempre de cara amarrada, e entrou para o Hezbollah. Depois daquele dia, só ontem o vi voltar a sorrir – enquanto espalhava, para cada ouvido xiita disposto a escutar uma fofoca, o que eu fazia trancado no meu quarto.
...é que pessoas com quem você não tem a menor intimidade se sentem com o direito de, sob o pretexto de que estão lhe ajudando, invadir sua casa e arrastar você para um desses abrigos anti-bombas. Foi o que me aconteceu ontem, quando a Força Aérea do Estado Ilegítimo e Maquiavélico de Israel desrespeitou o cessar-fogo e voltou a bombardear o Líbano – o seu, o meu, o nosso Líbano. A notícia mal tinha chegado aqui em Tiro quando duas das últimas pessoas a quem eu chamaria de amigo, os infames Ali Chofli e Kazen Bechara, arrombaram a porta do meu quarto a pontapés, gritando "resgate! resgate!", bem na hora em que eu, em frente ao espelho, tentava aperfeiçoar alguns passos do meu moonwalking.
Houve um ou dois segundos de estupefação muda, mas depois saímos os três correndo em direção ao abrigo. Eu detesto esses lugares porque eles não passam de buracos úmidos que, por maiores que sejam, nunca são grandes o suficiente para abrigar a multidão de covardes que corre para lá, com as calças borradas, ao ouvir qualquer barulhinho de motor, confundido o som de um caça israelense com o de qualquer Chevette 73 tunado.
É sempre assim: calor, aperto e silêncio, até o perigo passar. A diferença dessa vez é que parecia que todo mundo estava olhando para mim de um jeito meio esquisito, e vi o Ali e o Kazen cochichando com várias pessoas; acho que eles tinham um sorrisinho maldoso nos lábios. O Ali não ia perdoar essa oportunidade de incinerar o meu filme e contar a sua versão do que ele me viu fazendo no meu quarto. Ele esperou anos por essa chance.
No distante inverno de 1999, Ali Chofli, então um jovem imberbe em uma inocente viagem de fim-de-semana, deixou-se embriagar pelo aroma cosmopolita da Paris do Oriente e encerrou uma noitada de sábado num desses karaokês decadentes do lado maronita de Beirute. Imaginando-se livre dos olhares opressores da província, só largou o microfone com muita insistência dos seguranças da casa e depois de um set de quase quatro horas com o melhor e o pior da dance music dos anos 70, que deixou o lugar às moscas. A única pessoa que havia resistido bravamente ao falsetes de Ali durante "Dance, Little Lady, Dance" e "So Many Men, So Little Time" era um rosto familiar, de Tiro, e que ele jamais imaginava rever em circunstâncias tão embaraçosas: eu.
Então estudante da Universidade de Beirute, também estranhei a coincidência de encontrar um conhecido em meio à megalópole habitada por faces anônimas e indiferentes, e saboreei cada espasmo de pânico que vi no rosto de Ali, flagrado por um conterrâneo enquanto pagava de diva. Minhas irônicas batidas de palma ecoavam pelo karaokê vazio e dilaceravam a alma e a dignidade do pobre Ali.
Voltei para Tiro e contei para todo mundo, é claro. Eu acho, dando uma de psicólogo de botequim, que foi por isso que o Ali virou um sujeito desconfiado, sempre de cara amarrada, e entrou para o Hezbollah. Depois daquele dia, só ontem o vi voltar a sorrir – enquanto espalhava, para cada ouvido xiita disposto a escutar uma fofoca, o que eu fazia trancado no meu quarto.

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