Sunday, August 13, 2006

SOBREVIVENDO NO INFERNO

Não adianta só cuidar dos feridos e mutilados, por mais numerosos que eles sejam; numa guerra com as características da que estamos vivendo, é preciso dedicar socorro também aos civis que apresentam escoriações psicológicas. É com essa conversinha mole que o pessoal aqui vem pegando várias Médicas Sem Fronteiras.

Mas eu não me impressiono nem um pouco com essas infiéis ocidentais que acham que meia hora de caridade vai passar uma borracha em séculos de imperialismo. No meu bairro apareceu uma insuportável, a francesinha Marie Brunelli. Todo cueca de Tiro paga pau para ela, mas para mim é só mais uma estudante de enfermagem branquela usando o sofrido povo libanês para concluir seu TCC.

Hoje cedo ela me examinou, e pegou pesado comigo. Em período de guerra, quando cada minuto perdido pode custar uma vida, as conversas médico-paciente são francas e brutais.
– Você tem um pouco de lordose e escoliose, provavelmente por sentar errado e ficar o dia inteiro na frente do computador. Já experimentou RPG?
–Ah, claro. Imagino o bem que jogar Magic com um bando de nerds acima dos trinta vai fazer à minha coluna.
– Não esse RPG, toupeira. Estou falando de Reeducação Postural Global.
As mulheres daqui aprendem desde cedo a respeitar seus homens e jamais ousariam falar de forma tão rasteira e vulgar. Desse jeito eu me apaixono. A primeira sessão foi marcada para quarta.

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